quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Prefácio


Deixando de lado o pressentimento da morte, entre outros infortúnios sensatos, a vida é boa, e até por demais! Muitos apontamentos têm sido levantados pela arte no sentido contrário - e para uma mente pueril esta obra estaria incluída nisso -, fato este que acaba adestrando nos seres sensíveis uma espécie de resignação para com a dor, ou, antes, uma resignação romântica, "arcaica", logo, nada transgressora.
Bom, muitos já estariam se perguntando aonde pretendo chegar!... Entretanto, não creio ser o caso de chegar a algum lugar o da vida humana e deste prefácio em prol do vasto vácuo. Ambos são haicais no espaço.
Questões relacionadas ao nascimento, ao amor, a alma e à morte fizeram mentes mais sãs e instruídas pirarem. E creio que as mesmas cumpriram o seu papel que permanece em branco.
O motivo de sujar estas folhas é sobretudo o de saber no que posso vir a ser bom. E, como o leitor padrão pode ainda não ter notado, o fato de quebrar paradigmas é de suma importância para uma obra que pretende ser ao menos relativamente original. Todavia este processo não pode ser operado no vazio completo. Aí, talvez, entra certa utilidade deste livro.
Sempre: escritores, filósofos, artistas e poetas operaram de modo a fixar uma inspiração ou mesmo de modo sistemático - que estaria mais próximo da transpiração. Alguns uniram o inútil ao desagradável e são os que geralmente denominamos gênios. Poderia citar vários: Walt Disney, Balzac. Eu, não podendo ser um, nem outro, me fiz num sentido inverso e difuso que para muitos estaria próximo do vazio; mas não está. Logo, peço que não se deixem levar pelas medidas estabelecidas de perfeição.
O ser humano é um animal com inevitável impulso para o crime, o luto e o remorso, segundo a Bíblia e alguns filósofos, ora lúcidos, ora doentes, alemães. Os poetas, estes não contam, são seres que se encontram encerrados no mais alto patamar desta sórdida escala.

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Indolente, pseudossuicida e individualista, meu caráter poético foi moldado por Shakespeare, Sade, Werther e pelos desregramentos rimbaudianos. Creio agora ter posto um fim, mesmo que ilusório, a esta comédia maravilhosa de erros.
Cristão por imposição, monárquico por aspirar às coisas fortes e belas e pagão por panteísmos e firulagens; minha pessoa foi esculpida até então em formas disformes e antagônicas. O paradoxo. O dúbio. William Wilson. Narciso. Paciente de Lacan.
Descrente para comigo e os outros, ao mesmo tempo que imensurável sonhador, pretendo ser para além-túmulo. Fixar meu espectro de desastres no coração de outros igualmente hienas.
Identificação, não é esta a chave? E representar esta geração não é um trabalho, digamos, fácil. Tem que ser carente, ruim. Mas, não podendo operar no vazio. Sendo assim, venho me trabalhando, há muito, fascinante labirinto.

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Quanto à forma já que muitos poderão chegar à puritana conclusão que a maioria das poesias em versos que compõe este livro deveriam ter sido escritas em prosa: não é de hoje que diversas obras têm revelado o quanto tênue pode vir a ser a fronteira entre as mesmas. Reafirmo esta prática por iconoclastia e por ainda desconhecer a fundo diversas diretrizes metódicas do ofício. Estes dois fatores somados resultaram nas composições que aí vão; o que de maneira alguma me torna menos poeta. Creio friamente nisto.

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Apreciem as flores. Um buquê de apreciadores, creio ser o suficiente. Sem mais.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Lúcidos Anacronismos

Impossível seria a poesia estar morta;
ela independe de nós.

Uma mesma lua reside nas águas,
um mesmo sol nasce e se põe
todo dia no horizonte atingível...
No entanto, tão diferente mais do mesmo.

O contrário é sofisma:
sofisma do querer ser amado a seu modo.

Apolo Decadente

A harmonia passa em arpejos por aqui;
escrevo tragédias sem mesmo as sentir.

Me é indiferente a existência de Deus ou do Diabo...
Que venha a qualquer hora a morte ligeira ou lenta!

Nem recordo seu rosto para me emocionar...
A nostalgia não é mais minha fêmea-sadomasoquista.

As coisas mudas permanecem mudas,
são apenas o que são, permanecendo no lugar.

Só leio epopeias, entre outras narrativas heroicas,
e me acredito num anfiteatro escoltado pelo nada.

Ouçam as palmas?!...

Silêncio.

Graça indizível!

Nasce em cada cabeça de Briareu
um sorriso enigmático e lindo;
mas ninguém mais sairá ileso,
fora o autor de rosto indefinido.

Eclipse Solar

Os raios do Sol não mais apunhalam...
Podemos abrir os olhos, vê-lo negro
& sentir saudades das espadas.

Hoje o Sol parece feito de enxofre,
&, ao meio-dia, pressentimos a aura de Lúcifer
pairando; sua força, nossa ausência de luz.

Os vitrais estão mortos...

A Lua e o Sol roçam.

Eclipse Lunar

Esta Terra, igualmente familiar e estrangeira,
é a rainha dos paradoxos como um eclipse lunar
e a vida abstrata inteira.

Antes de todos os sonhos transformarem-se em poeira,
iremos, feito serpentes, nos enlaçar, para esquecer...
É o nada que é o tudo do ser!

Estranho raciocinar e sonhar limitados aos sentidos,
enquanto o único sentido é aquele que ignoramos,
ou rotineiramente afagamos

sempre leve, sem levar, ao final da jornada, vestígios...
O Tempo assim vai nos consumindo, é científico
e bíblico - e o sangue quente segue o ritmo.

O Fauno

Na aurora da fábula foi revelado um segredo indizível
através dos véus que caíam no horizonte lírico...
Somente o panteísmo servia de contemplação e inspiração
para os escritos do homem inimigo da ação.

Em seus impressionismos dignos de um Renoir,
ia pintando os matizes que jamais eram cor de âmbar
das maravilhosas deidades que acreditava decifrar
na esterilidade de coisas fantásticas do mundo.

Uma vez teve de assassinar um brutal urso
de pelos esganiçados e, logo depois, começou a chorar mar.
Nada mais o podia consolar pelo fato de ele
- o protetor das coisas rústicas e naturais -
ter aniquilado o que mais amava no bucólico lar.

Daí em diante, passou a cometer inescrupulosidades torrenciais
com os mais nobres animais; além de comer flores e relvas...
Ultimamente alguns campônios narram ver um monstro
ingerindo copos-de-leite como se não tivesse estômago.

O Templo de Hades

Deixei-me abater pela infalível morte
durante minha juventude sem norte
até as experiências psiquiátricas insanas
o cérebro e o coração corroerem.

Prostrando a imaginação hipocondriacamente...
Assim tornou-se nula minha lira, minha mente!

Quando despertei, sentir a brisa nos cabelos ralos
foi o necessário para fazer valer a pena ter nascido pleonasmo...
O sortilégio floresceu dobrado, não havendo iconoclastia suficiente
oriunda de alguma doentia e alemã psicologia para servir-me
de bálsamo na forma de um ideal; pois nada mais, nem nenhum mau presságio astral,
por mais que ainda fizesse do meu ser parte substancial,
iria corromper novamente a beleza de minha alma aflita que tanto arde.

As verdades e fantasias dos homens que pretendem eternizar-se,
são geniais e mesquinhas, muitas vezes trazendo consigo um abismo;
todavia, o maior abismo é não tê-las pressentido para as fazer imperar
no universo tosco das ideias, que irão, cedo ou tarde, deteriorar...
Para ainda depois as destronar e ter que reaprender, gradativamente,
gota a gota, sem filosofia alguma, viver o que não se sabe mais vivenciar.